Giuliano Ferreira: “Deixei o pornô aos 24 para carregar mala em hotel”

Casado, pai de dois filhos e pastor evangélico, Giuliano Ferreira é hoje muito diferente do que foi um dia. Entre os vários nomes que adotou, Julio Vidal e Giuliano Ferraz provavelmente são os que o tornaram mais conhecido: um dos maiores atores da indústria pornô que o Brasil já viu, dono de um corpo escultural e uma performance de dar inveja a qualquer homem desse país.

A ascensão na carreira de Giuliano, que é natural de São Paulo, se deu entre 2000 e 2004, quando visitou 12 países, fez mais de 300 filmes para produtoras brasileiras e internacionais, de todos os gêneros, e levou para cama famosas como Rita Cadillac e Marcia Imperator, apenas para citar algumas.

E mesmo no auge da fama e com renda alta para profissional do gênero, Giuliano largou tudo aos 24 anos depois de viver o que ele chama de experiência divina. Autor de um livro sobre a sua vida, Giuliano acaba de relançar o livro que conta sua história “Luz, Câmera, Ação e Transformação” em formato ebook e o que publicou dois anos depois, em 2016: “Pornografia o bem que te faz, o mal que lhe traz”.

Entre tantos nomes que adotou, o ex-ator quer agora ser reconhecido pela sua identidade verdadeira e o que tem a oferecer hoje. Confira a entrevista feita pelo Inside Porn em 2014 (atualizada esta semana) e que originou diversas reportagens na imprensa do país, entre elas na Folha de S. Paulo.

Como foi essa mudança radical de vida: de ator pornô famoso a pastor evangélico?

Foi um processo que durou muito tempo, 13 anos (ele só se tornou em pastor em 2017). Ninguém vira ministro do evangelho, pastor, da noite para o dia. É preciso muita dedicação, estudos, comprometimento, renúncia e, claro, amor. Comigo foi até rápido devido ao que Deus tinha para minha vida, pois hoje posso dizer que luto para ser exemplo na comunidade em que atuo e, é claro, isso tudo deve pela chamada de Deus em minha vida. Fui criado em um lar cristão e, aos 16 anos, eu me desviei do foco, cai no mundo, como dizemos. Foram sete anos fazendo tudo o que dava na telha. Aí, em 2004, cai em coma induzido em um leito de hospital com uma infecção generalizada. Foi quando tomei uma posição em minha vida. O que me motivou foi a experiência que tive com Deus naquele hospital e também minha família, que é um dos meus grandes motivos de querer viver uma vida com Deus.

Quando começou a filmar e como você virou ator de filmes adultos?

Eu comecei a filmar em 1998, com 19 anos. No ano anterior, eu trabalhava como gogo-boy e stripper, em varias casas noturnas de São Paulo . Tive sempre grande destaque no que fazia. Foi então que um diretor me convidou. De início, pensei em apenas levantar um dinheiro, mas ai começou a virar um poço sem fundo. Quando me deparei, a suposta fama chegou e eu já estava mais envolvido do que nunca.

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Já são 13 anos de estudo e dedicação ao evangelho (Foto: Arquivo pessoal)

Você começou no pornô hétero. Por que os filmes com trans e gays?

Na verdade, foi o contrário. Quando comecei, recebi um convite em atuar em filmes que não passariam no Brasil. Gravei três aqui e o restante em outros países, totalizando 12 filmes LGBTs. Mas aí a internet se expandiu com força no Brasil e não tive mais como omitir o que eu estava fazendo. Percebi que eu tinha talento e poderia dar sequência no gênero hétero. A verdade é que as pessoas confundem muito o personagem com o ator e não se ligam que ali você cria, ou como diz no meio, incorpora um personagem. Foi o que eu fiz. Quanto melhor eu ficava no trabalho, mais rendiam convites. Cai de cabeça nesse mercado.

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O outrora Giuliano Ferraz, um dos maiores ícones do pornô nacional (Foto: divulgação)

Hoje, ao olhar para trás, você se arrepende?

Esse papo das pessoas dizerem “fiz e não me arrependo” é mentira. Claro que sim. Eu me arrependo de muita coisa, mas muitas serviram de experiência para me tornar o homem que sou hoje.

Por que?

Por que eu me arrependi? Porque tenho filhos, família e não é fácil. As pessoas não entendem, misturam sua vida pessoal com a profissional, acham que você é aquilo que elas veem nos vídeos. O que elas não entendem é que ali a necessidade fala mais alto, que por trás de cada ator pornô existe uma vida que precisa ser alimentada e cuidada por esses profissionais. Mas essa é a mentalidade do brasileiro. No exterior, em se tratando de pornô, a mentalidade é muito diferente.

Quando você filmava, o pornô brasileiro vivia seus momentos de glória. O que chegou a conquistar em termos materiais com o dinheiro do pornô?

Eu vivi somente quatro anos desse período que você chama de glória do pornô, que foi de 2000 a 2004. No Brasil, como em quase tudo, você é explorado. Só quando comecei a fazer carreira internacional é que consegui construir algo, pois de 1998 a 2000 ganhava apenas para viver. No Brasil, a remuneração de um ator era de cerca de R$ 300 por cena. Se o cara ia bem fazia umas 10 cenas por mês. Quando me fiz conhecido na Europa o cachê foi valorizado também aqui. Como eu era o único ator internacional da época, recebia cerca de R$ 1000 por cena. As pessoas acham que você ganha uma fortuna. Isso é mentira. O que conquistei foram três casas simples, no interior de São Paulo e um carro do ano, na época e somente. Aí tem os boca-abertas que dizem que parei porque fiquei velho, porque quero ganhar dinheiro com o evangelho, essas coisas. Estão completamente enganados. Eu parei no auge da carreira de um homem no pornô, com 24 anos de idade, para trabalhar como carregador de malas em um hotel.

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Capa do primeiro livro, lançado em 2014. Agora, disponível em ebook (Foto: divulgação)

Você não considera o pornô uma arte?

Acho que é arte nos Estados Unidos, onde é uma indústria milionária e valorizada. Tanto que muitos atores e atrizes migram do pornô para o cinema convencional, enquanto aqui no Brasil os profissionais dessa indústria são considerados garotos de programa, que querem dinheiro fácil. É claro que é assim nos Estados Unidos e na Europa em alguma medida, mas aqui no Brasil quem ganha com o pornô é quem produz, quem distribui. Não quem tira a roupa.

O que você diz aos fieis de sua igreja sobre o seu passado na indústria pornô?

Não digo nada. Minhas atitudes falam por si só. Resolvi mudar, ser uma nova criatura. Poderia tentar entrar no meio usando isso como um catalisador, mas não é o que faço. Sou convidado para ministrar por aquilo que lutei em conhecer e estudei. Quando chego para pegar nos lugares, o meu testemunho acaba sendo uma surpresa para muitos.

“Eu parei no auge da carreira de um homem no pornô, com 24 anos de idade, para trabalhar como carregador de malas em um hotel”

A reação das pessoas, como é?

Quando sabem, louvam a Deus por um ator que se perdeu e por um marido, um pai, um líder em potencial que se encontrou. É claro que como em todo lugar tem os hipócritas, invejosos que não leem a Bíblia, pois o maior apóstolo por nome Paulo de Tarso era matador. E eu nunca prejudiquei ninguém, mas como o próprio apóstolo Paulo disse “onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus”.

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Autografando seu primeiro livro, em 2016 (Foto: Arquivo pessoal)

Já recebeu propostas para voltar a filmar?

Sim. Várias vezes. Como disse, parei aos 24 anos, no auge da energia, corpo atlético e virilidade. Os maiores atores trabalham até os 43 anos em média. Pense comigo. Um cara que era famoso, ganhava razoavelmente bem, mudar para ganhar 10% daquilo que ganhava para ser carregador de malas? Não parece um bom negócio se pensarmos em dinheiro. Sou firme na opinião. Na última vez que recebi uma proposta foi um contrato de um ano, de R$ 400 mil – cerca de R$ 34 mil por mês, sem contar promoções, propaganda. Eu disse não. Não discrimino ninguém, mas essa é minha opinião. Minha vida, meu Deus, minha família valem mais do que todo esse dinheiro.

“Aqui no Brasil quem ganha com o pornô é quem produz, quem distribui. Não quem tira a roupa”

Você se considera um homem vaidoso? Por que?

Vaidoso sim, como toda pessoa que gosta de se apresentar bem. Mas não sou narcisista. Eu me cuido na medida do possível. Hoje mais pela saúde do que pela estética.

Seus filmes fizeram muito sucesso entre o público gay. Como você reage a esse público?

Até hoje existe assédio, mas respeito e minha reação é normal. Na rua, em aeroportos, ainda é comum pedirem para tirar foto e mesmo tendo minhas opiniões hoje, dou a maior atenção. Apenas quando falta o respeito e isso infelizmente acontece, com propostas, palavras, é que não gosto. É legal você admirar a pessoa pelo o que ela faz, mas ser invasivo definitivamente não acho legal.

O que é preciso para ser ator pornô?

Sei lá. Acho que genética, pois muitos querem ser e não podem. E também uma pitada de desempenho e atuação em mostrar o que, muitas vezes, não sente. É uma interpretação. Filmar é uma coisa, o material final é outra.

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Como Julio Vidal, no auge da carreira no pornô: bem diferente do homem de hoje (Foto: divulgação)

Por que você acha que fez tanto sucesso?

Vou ser sincero. Não me acho um cara bonitão. Se mostrar foto minha quando criança você vai entender o que estou falando (risos). O que me fez alcançar sucesso nesse mercado, o que pelo menos ouço até hoje, é a atuação, o meu físico, que cuidava muito, expressão em cena e comprometimento.

Hoje como é sua vida? Vejo que viaja sempre o Brasil pregando.

Sim. Lutei muito para que isso não acontecesse, pois muitos falam agora que quero ganhar dinheiro com a igreja. Novamente, repito que isso é a maior mentira. Faz quatro anos que vou aonde sou convidado, nas condições que o evento pode fazer. O que complementa minha renda é a venda de DVDs de pregação, bíblias que me ajudam. As viagens são resultado da competência do que faço hoje. Eu faço com amor, dedicação e por isso que as portas se abrem para minha vida.

Você já lançou até livro…

Sim. Mas a minha meta maior é dedicar a minha vida em prol daqueles que querem mudar, pois o evangelho não é pra descer na goela de ninguém, mas sim para quem quer conhecer a Deus. Conhecê-lo é significado de mudança de conduta. Quero ver meus filhos formados e dar uma vida digna a minha família. Meu primeiro livro se chama “Luz, Câmara, Ação e Transformação”, lançado em 2014 pela editora Semeando. E agora estará disponível online, em formato ebook.

A vida hoje é mais simples do que aquela em que você era desejado por milhares, imagino…

Sim. Muito mais simples. Eu moro em uma casa simples, ando de carro do ano 1999, também simples. Eu não posso fazer tudo que quero porque meus rendimentos são modestos, mas estou lutando por dias melhores como todo brasileiro.

É comum a gente guardar nossos trabalhos. Você ainda tem seus filmes em casa?

Na verdade, nunca guardei. Nunca gostei de me ver em cena. Sei como é feito e sei que é muita enganação. O que guardo são as fotos de viagens, da época. Isso posso dizer que valeu como experiência. Visitei 12 países e disso, sim, guardo boas recordações.

Para adquirir as obras é preciso fazer contato pelo e-mail giulferreira@gmail.com ou via redes sociais do ex-ator.

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