Giovani Valente: “Tenho a experiência de veterano e a energia de novato”

Se você foi amante do cinema adulto brasileiro no início dos anos 2000, provavelmente viu surgir muitas estrelas no universo masculino. Mas nenhuma igual ao rapaz de sotaque forte, músculos delineados na medida certa e energia de dar inveja a qualquer pessoa.

Foi por conta desses atributos que o jovem Giovane Valente, então com apenas 21 anos, decidiu transar em frente às câmeras para ganhar a vida. Estava tão certo da decisão que não fez questão de esconder seu nome verdadeiro ou sequer pensou duas vezes antes de mostrar a cara. Ele sabia o talento que tinha.

Com o pornô brasileiro ganhando espaço, e produtores internacionais visitando o país em busca de novos talentos, foi apenas uma questão de tempo até que o rapaz atingisse o topo da carreira. Entre 2000 e 2006, ele fez cerca de 600 cenas para o mercado nacional e produções fora do país.

Ganhou nome. Transou com belíssimas mulheres, fez amigos e inimigos – afinal, o sucesso não bate à porta sozinho. Mas, após seis anos intensos na indústria, o galã do pornô brasileiro desapareceu. Evaporou sem deixar rastros.

A única forma de vê-lo até pouco tempo era por vídeos de baixa qualidade disponíveis na internet – ou por sorte, algum colecionador com VHS dos tempos de glória do pornô. Mas não havia outra.

E uma pergunta ficou no ar durante todos estes anos: por onde anda o maior ator brasileiro que a indústria pornô já conheceu?

Inside Porn encontrou com ele e a entrevista exclusiva você confere aqui. 

Carreira

A minha carreira foi de 2000 a 2006. Comecei nas Brasileirinhas. As produtoras estavam no auge. Quem me levou foi uma garota de programa pra fazer filme. Na época era o Osmar, falecido Osmar, então diretor das Brasileirinhas. Foi ele quem me iniciou. Com o embalo, eu mergulhei de cabeça. É o sonho de todo homem, não é? Ganhar dinheiro, ficar com mulheres diferentes e viajar todo o Brasil. A Brasileirinhas filmava na Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul. Ai ia surgindo outras oportunidades. Filmei para a Introduction, Sexy, Nineten, Butmman, Panteras. Eu cheguei a filmar bastante. Eu estava no auge. Tinha semana que eu não parava em casa, só gravando. Hoje estou com 39 anos. Quando comecei, aos 21, tinha acabado de sair do quartel. Sempre fui putão, de sair com várias meninas.

Fama

Com certeza, eu era um dos mais valorizados porque sempre tive pique. Chegava a fazer cinco cenas e no outro dia estava pronto de novo. Sempre tive muita disposição. Eu era muito julgado nessa época. Era o ativo da situação. Eu tava no auge, ganhava bem, para todo trabalho meu nome era cogitado. Eu não me incomodava com a exposição, mas pelo julgamento dos outros. Como sempre fui reservado, então eu me sentia estranho ao ser reconhecido na rua, por exemplo. Acho até que era um pouco de preconceito próprio. Hoje em dia as coisas mudaram. Existem prêmios para os atores e percebo uma valorização diferente do que tinha antes. E até uma aproximação diferente do eu experimentei. O meu problema era mais pessoal, sobretudo quando envolvia parente e amigos. Hoje está tudo mais liberal, sem muitos preconceitos, mas naquela época era bem diferente. O pornô me ajudou bastante, com amizades e investimentos, mas com a família, era diferente.

Família

Meu pai sempre foi um homem sério e trabalhador. Uma vez eu estava com ele, um cara passou e disse que o pai valia a pena, mas o filho não valia nada. Esse episódio mexeu muito comigo. Tive que me afastar de casa por conta do preconceito. Quando o assunto era família, principalmente quando eu me tornei pai, o pornô pesou um pouco. Elas sabem o que eu faço e sempre investi no estudo delas. Hoje eu estou mais tranquilo quanto a isso e o que quero é resgatar o que deixei de legado. Eu fui casado, não no papel, me juntei como dizem por aí.

Recomeço

Agora, voltei. Retomei o caminho do pornô com a Helaine (Muzy, da Redfire), depois fui para o Ricardo Renault das Panteras. Recentemente, gravei para a Casa das Brasileirinhas e estou recomeçando aos poucos. Apesar do nome, e do meu histórico no pornô, sinto que estou começando do zero. Tem um primo meu fanático, ele se orgulha em dizer que é meu primo, levanta minha bola, e me ajudou a encarar de outra forma as coisas. Eu tinha na cabeça que eu havia feito merda no passado (por ter feito pornô) e relutei em voltar para que eu não repetisse a tal merda. Mas não é merda. Eu tenho um nome, o mesmo pique de antes, e quero retomar o que posso ter perdido, e o que deixei para trás. Com o tempo, conheci uma pessoa que me fez, infelizmente, infeliz. Fiquei casado até 2016, quando me separei. Aí pensei, já que não estou fazendo mais nada, é hora de voltar para o pornô.

Sumiço

Sou meio recluso, sabe? Fiz muitos filmes, mas sempre fui muito reservado. Dei apenas uma entrevista, na época, e faz muitos anos isso.  Nunca quis os holofotes. Mas hoje em dia minha cabeça mudou em relação a isso. E eu sei que tenho um nome de peso. Eu desperdicei esses anos parados, mas voltando agora, não teria problema. Acho que as pessoas se lembram do meu inicio e do que eu posso oferecer.

Mercado

Antigamente, como tinha muitas produtoras, pra não ficar dando a cara em uma só, a gente não era chamado tanto. Ficávamos pulando de galho e galho. Quando começou a supervalorizar, estava valorizando atores famosos, como Alexandre Frota, Rita Cadilac e essa galera aí. Era uma novidade ator de tevê fazer pornô. Então, os atores veteranos ficaram, de certa forma, para trás. Hoje isso já mudou. Tem uma diferença enorme de 10 anos atrás e os tempos de hoje. As pessoas encaram o pornô de forma diferente hoje. Mas naquela época era uma supresa desagravável quando relacionam você à indústria.

Beleza

Com o decorrer do tempo, você sabe como é a vida de casado, a gente fica relaxado. Eu fiquei calvo, então tive que dar um up, emagreci, voltei a malhar.  O pornô de hoje quer o cara sarado, que faça a cena. Até gravei com o Big Macky outro dia. Na minha época, o pessoal não se importava de aparência, contando que tivesse com o pau duro. O que fazia eu me destacar é que sempre fui um cara boa pinta, cabeça no lugar para fazer o trabalho, e também para atuação. Eu tinha desenvoltura tanto na atuação como na hora do sexo. Alguns caras não têm físico, mas faz uma cena do cacete. Antigamente o ator poderia ser gordo, magro, feio, bonito, não importava. Importava pau duro. Acho que falta um pouco da experiência de antigamente e sinto que o público pede isso. Quando me abordam, falam assim: “aquela cena foi absurda de boa”. Isso não acontece mais com tanta freqüência hoje em dia.

Amigos

Eu tenho orgulho de falar que eu, Tony, Ancelmo, e o Leonardo, fizemos um bom grupo de atores que não se preocupava apenas em meter. Falcão e o Yuri também entram nessa. O Yuri ainda precisa botar algumas coisas na cabecinha, mas é sangue bom. Por que eu me destaquei? Porque eu era diferente. Não tinha tempo ruim comigo. Já fiz cena em Mauá a 5° graus, em piscina gelada, e com o pau durão.

Não gosto de falar muito das pessoas. Mas sei que o Ancelmo fez faculdade e está sem dar notícias. O Leonardo era o nosso irmão mais novo. Entrou depois de mim e do Tony e seguiu carreira. Tínhamos nossas desavenças, mas nutríamos uma boa amizade.

Éramos super amigos. Anos depois que o Leonardo entrou para a polícia, nós nos distanciamos. Mas a vida continua. O Tony Tigrão foi meu pupilo. Somos muito amigos até hoje.

Hoje em dia vejo que tem caras que são muito estrelas e acham que são estrelas de Hollywood. Eu desprezo esses caras. Primeiro porque, independentemente de qualquer coisa, todo mundo precisa ser humilde ou vai acabar na merda.

Nome lá fora

Entre produções internacionais, fiz muita coisa. Aqui no Rio tinha o Alan, o Stagliano, o Paulo Sergio. Se por acaso tivesse oportunidade de trabalhar de novo com esses caras, seria ideal. Tive a chance de viajar pra fora, para a Espanha, mas aquela história de barrar brasileiros no aeroporto de lá, me deixou desanimado. Eu cheguei a tirar passaporte e a ideia era filmar na Espanha e na República Tcheca, mas não rolou. Eu tinha uma agenda com os contatos de todo mundo, mas isso se perdeu com o tempo. A internet talvez me ajude a reaproximar desse pessoal.

O pornô de hoje

Agora do que me impressionou muito nesse retorno é a Casa das Brasileuiras pela tecnologia. De uma câmera que não precisa de câmera man para gravar. Você pode gravar até quatro cenas. Outro dia gravamos eu e o Big Macky, ele de um lado e eu de outro, depois DP em duas meninas, ao mesmo tempo. Eu nunca tinha visto essa tecnologia e foi muito bom saber que estamos bem amparados neste quesito.

Futuro

A minha pretensão de hoje é supervalorizar esse meio também, quero dizer, como eu já tenho um bom nome, recebi com muito prazer dicas de quem continuou enquanto eu parei. A própria Helaine Muzy me deu dicas sobre aparência, o Clayton das Brasileirinhas me abriu portas. Também encontrei veteranos da minha época, como o Alex Ferraz, que filmamos juntos na Buttman. A cena rolou perfeitamente. Pensaram que ia demorar muito. Antigamente, demorava de 2h a 3h dependendo do ator. Minha cena na Casa das Brasileirinhas foi a mais rápida possível. Eu não enrolo, conduzo a cena, e termino o mais rápido possível. Os caras da edição fazem tudo ao vivo. Praticidade é algo bem visto nesse meio.

Atuação

Muitas pessoas me procuraram para dizer que faltava bons atores. Gosto quando a cena não é mecanizada. O diretor chega pra você e diz o que é pra fazer. O que acontece é que o cara faz amor. Eu já sou meio hard. Chego e faço. O Renault, pro exemplo, gosta de historinha, mas também gosta que o ator tome atitude. Toda vez que fiz cena com ele, pergunto: quanto tempo de gravação? Qual história? O que você quer de mim? O resto é comigo.

Atrizes

Na minha época, as meninas também eram tímidas. A desenvoltura das atrizes dependia muito dos atores. Mas a maioria dos atores pensa que é só chegar, meter, pegar a grana, e cair fora. Isso não funciona. A experiência mostra que é preciso valorizar a cena, conversar com a sua parceira, e criar um clima propício. Quem assiste percebe esse entrosamento, o que faz toda a diferença.

Já que a gente vai meter mesmo, eu pergunto do que cada uma gosta. Recentemente isso aconteceu. Uma atriz tinha feito uma cena com quatro atores e estava preocupada em fazer anal novamente. Sem tesão não tem como fazer nada, ainda mais anal, então conversei com ela e a tranquilizei. É como trabalhar num restaurante. Você escolhe o que vai comer, mas pode melhorar o prato, ou tornar a experiência gastronômica ainda melhor. Gosto de ouvir feedback.

Ascensão

No passado, a Buttman era a pica das produtoras. Eu só gravei com eles depois de quase 5 anos de carreira. Era preciso muito networking para chegar até lá. Até consegui meu espaço com eles, demorou muito, até porque minha fama era de selvagem e escroto naquela época, mas não é verdade. O Stanley é meu amigo até hoje.

Neste meu retorno, o que tiver que fazer para valorizar o meu nome e torná-lo em evidência, eu vou fazer. O falecido Fabio Scorpion foi um cara que explorou bem o nome dele. Não era um super ator, mas a imagem dele e a propaganda por trás dele, principalmente via Buttman, o tornou conhecido e valorizado. Brinco que eu só que nem puta, dinheiro na mão, calcinha no chão.

HIV

Eu tive parente que morreu de HIV. Não foi algo falado, mas eu tive essa experiência na família. Existe diferença em trabalhar no pornô e transar sem camisinha. Eu me inspiro muito no Stagliano, que faz pornô, e tem HIV. Já fiz cena sem camisinha, como as pessoas sabem, mas me sentia seguro. Fazíamos exames no set e ainda assim às vezes batia a insegurança. Tem gente que não está nem aí, que saí metendo por aí sem camisinha e se fode. Já perdi amigos para a Aids, inclusive dois atores conhecidos meu, mas graças a Deus desse mal nunca passei. Sempre tive cabeça para me cuidar ao máximo. Mesmo com os erros do passado, tento conhecer bem as pessoas.

Viagra

Perdi as contas, mas devo ter mais de 600 cenas por aí. Gravei com inúmeras empresas e para muitos gringos. Eu fazia mais ou menos duas cenas por dia, todos os dias. E era tudo natural. A gente só foi saber de Viagra em 2006. O que me dá energia é café e amendoim. Hoje já se tem Viagra a disposição com mais facilidade. Óbvio que eu já usei. Recentemente fiz uma cena ao vivo para a Casa das Brasileirinhas e tomei. Gozei que nem um caralho na cara das meninas. Mas antigamente, no auge, era tudo natural. Ainda hoje é, mas já me permito usar uma coisinha aqui e outra ali. Acredito que o que torna uma ator valorizado não é a quantidade de vezes que ele goza, mas a postura dele. Não tenho problema em gozar. Eu sinto que esse novo Geovani tem a experiência de um veterno, mas a energia de um novato.

Filmes com transexuais

A primeira vez que eu gravei para a Brasileirinhas foi com uma morena e depois com uma loira. Aí, o falecido diretor, o Osmar, me explicou que tínhamos que diversificar, até porque filmes heteros estavam disponíveis apenas a cada duas semanas. Os de travestis e transexuais tinham mais oportunidades. Eu fechei a cara pra ele e disse que era hétero. “Poxa, mas eu não sou gay”, rebati na lata. Ele disse: “Você não precisa ser gay para transar com travestis. Seja ativo. E você é um ator”.

As pessoas confundem muito isso. É um trabalho. Eu fiz um papel. Pronto. Mermão, você botou de quatro, pra mim é uma mulher. Eu encaro dessa forma. Era um trabalho e não me arrependo. Era bem lucrativo. Fiz dinheiro com esses filmes. Se nos filmes heteros eu fazia uma cena a cada duas semanas, fazia quatro cenas por dia nas produções com transexuais. O Osmar tirava meu sangue.

Eu faria novamente. Tudo pelo pornô. Como um ator convencional precisa emagrecer pra fazer um papel diferente, ou atriz que precisa raspar a cabeça, não vejo problemas. Tem coisas que eu não faria, claro. Eu sou hetero, gosto de buceta, mas nada contra fazer cenas com transexuais. Não há questão nisso. O que me incomoda é que as pessoas julgam o que o cara faz em cena pelo o que é na vida real. Não somos todos nós atores?

Bastidores

Fora as cenas, eu sempre fui namorador nos bastidores. O Osmar falava pra gente assim: “vocês podem transar fora do set o quanto quiserem, mas se o pau não subir aqui, vocês estão fora”. Ele era muito exigente e isso nos motivava. A gente nem se preocupava em não subir o pau, mas tinha gente que não conseguia. Eu era o Severino, quebra galho, sabe? Se você olhar com cuidado cenas do passado, vai perceber que eu fui dublê em várias delas. Muita gente não sabe, mas isso era muito comum, e eu substitui muitos atores que não conseguiam gozar em cena, e precisavam de alguém para finalizar.

Memórias

Tenho boas memórias. Uma vez, com a Helen, a gente começou a fuder em um muro para a Introduction. Foi um tesão absurdo. O muro começou a quebrar enquanto eu metia. Outra cena foi a que bati o recorde de ficar com o pau duro. O Tony estava comigo. Foi um carnaval da RedFire. Gozei 15 vezes. As pessoas olhavam pra mim e achava que eu era psicopata. Ainda hoje alguns colegas me chamam de psico. São essas histórias que hoje olho pra trás e dou boas risadas.

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